O tempo
Todos os dias ando tres quadras da minha casa para o trabalho, e todos os dias olho o céu nessa pequena caminhada, quando tem sol agradeço sorrindo e sentindo o calor que me aquece o rosto e a leve brisa da manhã que sopra meus cabelos desalinhado-os. Penso na minha infancia, pobre, quando caminhava para a escola, saí do bairro dix-sept Rosado, atravessava toda as quintas e ia estudar na escola municipal Chico Santeiro no bairro nordeste, coincidência ou não, mas a primeira escola que estudei aqui em Natal foi no Ferreira Itajubá, fiz a primeira série do primário com a professora Dona Conceição, era uma senhora morena alta e muito gentil, a segunda série foi no Chico Santeiro onde estudei com Dona Elizabete, ela tinha uma cabeleira enorme e lábios grossos e sobrançelha grossas e negras da cor de sua longa cabeleira. Era longa a caminhada, mas eu tinha um enorme prazer de ir a escola, sempre fui uma ótima aluna, calma, estudiosa e nunca me metia em encrencas, a minha mãe só ia a escola para fazer a matricula, nunca recebeu uma reclamação sobre meu comportamento. Voltando ao presente, todos os dias nessa caminhada ao trabalho em agradeço a Deus a oportunidade de ter uma familia, um trabalho, meus filhos e amigos. Sou feliz com o que tenho e não desejo ter mais do que isso, só queria um pouquinho mais para ajudar a quem nada tem. Porque eu sei o que é passar necessidade, sei o que é ir para a escola sem tomar café e voltar sem ter o almoço, passei por isso muitas vezes, principalmente quando estudei as últimas tres séries do primário na escola municipal Mario Lira, essa era mais perto de casa, na época eu morava numa casa na coronel estevam vizinho ao cabaré de Zé Pinto. A terceira série eu estudei com Dona Ana, eu achava legal ter o nome igual o dela, ela era linda! tinha cabelos longos como os meus e um sinal negro bem grande no rosto, quando ela sorria fazia duas covinhas nas bochechas, ela tinha dentes branquinhos e perfeitos, era casada com um bombeiro e tinha uma filhinha bem pequena. a quarta série fiz com Dona Ivaneide, uma coroa de cabelos pintados de louro platinado, ela usava uma maquiagem bem acentuada e óculos de grau com aros fininhos, ela era muito série e todos tinha medo dela, ela dizia que era noiva, mas eu acho que nunca casou, era uma chata!. A quinta série, eu fiz porque não tinha registro de nascimento para fazer o exame de admissão para o ginásio, infelizmente meu pai era muto ignorante e dizia que filho de pobre não precisava estudar, que isso era coisa de rico, só vim entendê-lo muito tempo depois o motivo pelo qual ele pensava assim. Bem, como eu não tinha registro de nascimento, não fiz o exame, a maioria dos meus colegas se foram passando no exame e eu fiquei para fazer a quinta série com Dona Beatriz, um senhora evangélica, alta e forte com pernas cabeludas e muito exigente. Nos últimos tres anos do primário eu tinha duas amigas, Selma e Edna. Selma era branca, alta, magra, cabelos longos, pretos e lisos e Edna era totalmente o contrário, morena clara, baixinha, bochechuda, pernas grossas e tinha cabelos castanhos cacheados. Nós eramos inseparávéis, faziamos tudo juntas, juntavamos os dinheiros dos nossos lanches e dividiamos por três, mesmo que, muitas vezes eu não levava nada, mas elas me davam por igual. nunca vou esquecê-las. Foram três anos juntas na mesma escola, na mesma classe e com os mesmos problemas. A vida se encarregou de nos separar quando passamos para o ginásio, eu fui para o João XXIII elas se foram para outras escolas diferentes, perdemos o contato e nunca mais voltamos a nos encontrar. Eu tinha doze anos quando começei o ginásio e me tornei amiga de Marluce Peixoto, eramos vizinhas, ela era bem mais velha do que eu e já fazia o científico no João XXIII, o pai dela era motorista de táxi e ela tinha duas irmãs mais novas e um monte de irmãos, que não lembro os nomes de todos. Foram anos bons, com fases boas e ruins, havia dias de farturas e dias de miséria total. O futuro para mim era tão incerto, jamais sonhei em ter tudo que hoje tenho, minha esperança era de sobreviver para sempre, mas no fundo, bem lá no fundo do meu coração eu sabia que no futuro teria uma vida melhor, para isso começei a trabalhar aos dezesete anos… e venci! graças a Deus! e a minha força de vontade.
Posted by Ana Miralinda in Crônicas | Comment now »